Preço de transferência interno entre divisões: conceito, limites e exemplo resolvido
Como fixar o preço a que uma divisão vende a outra dentro da mesma empresa: limites mínimo e máximo, capacidade ociosa e exemplo resolvido.
Numa empresa organizada em divisões, uma divisão produz um componente e outra usa-o. A que preço deve a primeira vender à segunda? Esse preço, interno ao grupo, determina o lucro de cada divisão e influencia decisões que podem ajudar ou prejudicar a empresa no seu conjunto. Este artigo trata do conceito de gestão; o preço de transferência fiscal entre entidades relacionadas é outro tema.

O que é e para que serve
O preço de transferência interno é o valor atribuído a bens ou serviços que circulam entre divisões ou centros de lucro da mesma organização. Não gera receita para a empresa como um todo: o que uma divisão ganha, a outra perde. Mas cumpre três funções:
- Medir o desempenho de cada divisão como centro de lucro.
- Motivar os gestores divisionais a tomarem decisões autónomas.
- Orientar a decisão de comprar internamente ou no exterior, produzir ou subcontratar.
O critério para um bom preço é a congruência de objectivos: aquilo que é melhor para cada divisão deve ser também o melhor para a empresa.
A regra dos limites
Existe sempre um intervalo dentro do qual o preço de transferência é aceitável para as duas partes:
- Mínimo (divisão vendedora) = custo variável por unidade + custo de oportunidade por unidade (a margem que deixa de ganhar por vender internamente em vez de externamente).
- Máximo (divisão compradora) = o preço mais baixo a que consegue comprar a mesma qualidade no exterior, ou o valor que o componente acrescenta ao produto final, se não houver alternativa.
Se o mínimo for inferior ao máximo, a transferência interna cria valor e o preço deve ficar algures no intervalo. Se o mínimo for superior ao máximo, a empresa ganha em comprar fora.
Enunciado
A Divisão A fabrica um componente com custo variável de 40 u.m. por unidade e custos fixos de 20 por unidade ao nível normal de 10 000 unidades (valores ilustrativos). Vende-o no mercado a 70, com custo variável de venda de 5 por unidade, que não existe em vendas internas. A Divisão B precisa de 2 000 unidades por período e pode comprar o mesmo componente a um fornecedor externo.
Caso 1: a divisão A tem capacidade livre
A produz e vende 8 000 unidades ao exterior, pelo que lhe sobram 2 000 de capacidade. Vender internamente não implica perder vendas externas: o custo de oportunidade é zero. O fornecedor externo pede 62 por unidade.
| Limite | Cálculo | Valor |
|---|---|---|
| Mínimo (A) | 40 + 0 | 40 |
| Máximo (B) | Preço externo | 62 |
| Ganho para a empresa por unidade | 62 - 40 | 22 |
Qualquer preço entre 40 e 62 é vantajoso para ambas. Se for fixado em 55: A ganha (55 - 40) x 2 000 = 30 000 e B poupa (62 - 55) x 2 000 = 14 000, num total de 44 000, igual ao ganho de 22 x 2 000. O preço só decide como o ganho se reparte.
Caso 2: a divisão A está na capacidade máxima
Agora A vende todas as unidades ao mercado. Cada unidade que fornece a B é uma venda externa perdida, com contribuição de 70 - 5 - 40 = 25.
| Hipótese de preço externo para B | Mínimo (A) = 40 + 25 | Resultado |
|---|---|---|
| 66 | 65 | Transferir: intervalo 65 a 66; ganho de 1 por unidade (2 000 no total) |
| 62 | 65 | B compra fora: A recebe mais vendendo ao mercado |
No segundo caso, B compra no exterior por 62, A vende ao mercado e a empresa fica melhor: transferir internamente custaria 40 + 25 = 65 por unidade (custo variável mais margem perdida), contra 62 de compra externa.
Métodos de fixação e armadilhas
| Método | Como funciona | Vantagem | Risco |
|---|---|---|---|
| Preço de mercado | Usa o preço externo, ajustado por custos evitados | Objectivo, bom para medir desempenho | Pode não haver mercado comparável |
| Custo completo ou custo mais margem | Custo total do bem mais uma percentagem | Simples de aplicar | Transmite ineficiências e pode levar a decisões erradas |
| Custo variável | Só custos variáveis | Alinha com a decisão com capacidade livre | Vendedora não tem lucro, não serve para avaliar a divisão |
| Negociado | As divisões acordam o preço | Preserva autonomia | Demorado, depende do poder negocial |
| Duplo | Vendedora regista preço de mercado, compradora regista custo | Motiva ambas | Soma de lucros divisionais excede o da empresa |
Um exemplo de armadilha no Caso 1: se a empresa impuser como preço o custo completo (40 + 20 = 60) e B encontrar fornecedor externo a 58, B compra fora. Mas a empresa perde 58 - 40 = 18 por unidade, porque a capacidade de A estava livre e os custos fixos de 20 não evitáveis continuam a existir de qualquer forma.
Preço de transferência fiscal: outro assunto
Quando as divisões são entidades jurídicas diferentes, sobretudo em países diferentes, as autoridades fiscais exigem que as transacções entre elas sejam feitas a preços de plena concorrência. Isso é regulado por normas específicas de cada país e não é o mesmo problema de motivação interna estudado aqui. Veja preços de transferência: introdução para estudantes e centros de custo e centros de lucro.
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Perguntas frequentes
Qual o preço de transferência ideal?
Não há um único. Há um intervalo entre o mínimo aceitável pela vendedora e o máximo aceitável pela compradora; dentro dele, o preço apenas reparte o ganho.
Porque é que o custo de oportunidade é importante?
Porque, se a divisão vendedora já vende toda a capacidade ao mercado, cada unidade transferida significa uma venda perdida, e essa margem tem de entrar no preço mínimo.
Posso usar o custo completo como preço de transferência?
Pode, por simplicidade, mas arrisca-se a decisões erradas, como recusar uma transferência interna que beneficiaria a empresa.
Preço de transferência interno e fiscal são a mesma coisa?
Não. O interno serve a gestão e a avaliação de divisões; o fiscal serve para garantir que operações entre entidades relacionadas respeitam o princípio de plena concorrência.