Rácios financeiros: liquidez, endividamento e rentabilidade
Os principais rácios financeiros explicados: fórmulas, interpretação e exemplo numérico completo com liquidez, endividamento e rentabilidade.
Um rácio é uma divisão entre duas grandezas das demonstrações financeiras que torna comparáveis empresas de dimensões diferentes e anos diferentes. Sozinho, um rácio quase nada diz; comparado com o histórico da empresa e com o sector, torna-se uma ferramenta de diagnóstico. Dividem-se habitualmente em três famílias: liquidez, endividamento e rentabilidade.

Dados do exemplo
Todos os rácios abaixo usam a empresa fictícia Gama, em u.m. (valores ilustrativos): activo corrente 60 000 (inventários 20 000, clientes 30 000, disponibilidades 10 000); activo não corrente 90 000; passivo corrente 40 000; passivo não corrente 50 000; capital próprio 60 000; vendas 200 000; resultado líquido 12 000.
Rácios de liquidez
Respondem à pergunta: a empresa consegue pagar o que deve a curto prazo?
- Liquidez geral = activo corrente / passivo corrente = 60 000 / 40 000 = 1,5.
- Liquidez reduzida = (activo corrente − inventários) / passivo corrente = 40 000 / 40 000 = 1,0. Retira os inventários porque nem sempre se vendem depressa.
- Liquidez imediata = disponibilidades / passivo corrente = 10 000 / 40 000 = 0,25.
A Gama cobre as dívidas de curto prazo, mas só porque conta com a cobrança de clientes. Não há um valor mágico: retalhistas com cobrança imediata funcionam com liquidez geral mais baixa do que fabricantes com vendas a prazo.
Rácios de endividamento e solvabilidade
Respondem: de quem é a empresa e quanto depende de credores?
- Endividamento = passivo total / activo total = 90 000 / 150 000 = 60%.
- Autonomia financeira = capital próprio / activo total = 60 000 / 150 000 = 40%. Soma 100% com o endividamento.
- Solvabilidade = capital próprio / passivo total = 60 000 / 90 000 ≈ 0,67.
- Dívida sobre capital próprio = 90 000 / 60 000 = 1,5.
Valores elevados de endividamento aumentam o risco, sobretudo quando as taxas de juro sobem ou as vendas caem, porque os juros têm de ser pagos independentemente do resultado. Para dívida financeira especificamente, os analistas usam também rácios de cobertura de juros (resultado operacional / juros).
Rácios de rentabilidade
Respondem: o negócio gera retorno suficiente?
- Margem líquida = resultado líquido / vendas = 12 000 / 200 000 = 6%.
- Rentabilidade do activo (ROA) = resultado líquido / activo total = 12 000 / 150 000 = 8%.
- Rentabilidade dos capitais próprios (ROE) = resultado líquido / capital próprio = 12 000 / 60 000 = 20%.
Decomposição DuPont: de onde vem o ROE?
O ROE pode decompor-se em três factores: margem líquida × rotação do activo × alavancagem. No exemplo: 6% × (200 000 / 150 000 = 1,33) × (150 000 / 60 000 = 2,5) = 6% × 1,33 × 2,5 = 20%, igual ao ROE directo.
Isto revela a origem do retorno: margem (preço e custos), eficiência (quanto vende por cada unidade de activo) e endividamento (alavancagem). Um ROE alto obtido sobretudo com alavancagem é mais arriscado do que um obtido com margem.
Rácios de actividade
- Prazo médio de recebimento = clientes / vendas × 365 = 30 000 / 200 000 × 365 ≈ 55 dias (aproximado, ignorando IVA).
- Rotação de inventários = custo das vendas / inventários. Se o custo das vendas for 120 000, 120 000 / 20 000 = 6 vezes por ano, ou cerca de 61 dias de stock.
Em Angola e Portugal, o IVA incluído nos saldos de clientes distorce estes cálculos; use valores consistentes entre numerador e denominador ou aceite o carácter aproximado do resultado.
Como interpretar bem um rácio
- Compare com os anos anteriores da mesma empresa.
- Compare com o sector: o endividamento aceitável de um banco é diferente do de uma loja.
- Verifique a composição: um bom ROE pode vir de lucros pontuais.
- Use sempre vários rácios; um só pode enganar.
- Confirme a base de cálculo: alguns autores usam médias do período em vez de valores finais.
Erros comuns dos estudantes
- Trocar numerador e denominador.
- Misturar valores em milhares com valores em unidades.
- Usar resultado antes de impostos num rácio e líquido noutro sem o indicar.
- Concluir sem comparar com um padrão ou histórico.
- Esquecer que a terminologia varia entre manuais (por exemplo, solvabilidade e autonomia).
Mini-exercício com solução
Uma empresa tem activo corrente de 90 000, inventários de 30 000, passivo corrente de 60 000, activo total de 240 000 e capital próprio de 96 000. Calcule liquidez geral, reduzida e autonomia financeira.
Solução: liquidez geral = 90 000 / 60 000 = 1,5; liquidez reduzida = (90 000 − 30 000) / 60 000 = 1,0; autonomia financeira = 96 000 / 240 000 = 40%. Endividamento = 60%. A empresa tem a mesma estrutura que a Gama no exemplo, embora com dimensão maior, o que mostra a utilidade dos rácios: comparam estruturas, não tamanhos. Experimente agora alterar o inventário para 50 000 e veja como a liquidez reduzida cai para 0,67 sem mudar a liquidez geral.
Em Angola e em Portugal
Os rácios são os mesmos em qualquer país, mas os valores de referência diferem: em economias com inflação alta e juros elevados, como já aconteceu em Angola, o custo da dívida e a erosão do valor dos saldos tornam os rácios nominais mais difíceis de comparar entre anos. Em Portugal, os dados do Banco de Portugal e das centrais de balanços permitem comparar empresas por sector; em Angola, a comparação sectorial é mais limitada pela disponibilidade de informação. Seja qual for o país, compare sempre empresas do mesmo sector e com políticas contabilísticas semelhantes.
Precisa de apoio de contabilidade para a sua empresa?
Se, além de estudar, tem ou vai abrir um negócio, a Contas Organizadas trata da contabilidade, da fiscalidade e da folha de salários. Fale connosco.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre liquidez e solvabilidade?
Liquidez diz respeito à capacidade de pagar no curto prazo; solvabilidade mede a capacidade de cumprir todas as dívidas com o capital próprio, no longo prazo.
Que valor de liquidez geral é bom?
Depende do sector, mas valores entre 1 e 2 são frequentemente considerados confortáveis; confirme sempre com a realidade do negócio.
O ROE alto é sempre bom?
Não: pode resultar de endividamento elevado, que aumenta o risco, ou de um lucro excepcional.