Convenções contra a dupla tributação: como se lêem e aplicam
Como ler uma convenção para evitar a dupla tributação: residência, estabelecimento estável, artigos de rendimentos, métodos de eliminação e exemplo.
Quando um rendimento pode ser tributado em dois países ao mesmo tempo, as convenções para evitar a dupla tributação decidem qual deles tem prioridade e como o outro deve compensar. São tratados internacionais, e lê-los com método é uma competência valiosa: quase todas seguem a mesma estrutura, inspirada em modelos internacionais, como o da OCDE.

Porque surge a dupla tributação
A dupla tributação internacional resulta do choque entre dois critérios. Um país tributa pela residência (tudo o que um residente ganha, onde quer que seja) e outro pela fonte (tudo o que se gera no seu território). Se uma pessoa reside em Angola e recebe rendas de um imóvel em Portugal, ambos os países podem reclamar imposto. A convenção vem arrumar essa disputa.
Para a base do conceito, veja também o artigo dupla tributação: o que é e como evitar, mais orientado a empresas.
A estrutura típica de uma convenção
A maioria segue este esqueleto, com pequenas variações:
- Âmbito: quem (pessoas residentes de um ou de ambos os Estados) e que impostos (normalmente, os impostos sobre o rendimento).
- Definições: termos como pessoa, sociedade, residente, autoridade competente.
- Residência: regra de desempate quando a pessoa é residente nos dois países.
- Estabelecimento estável: quando uma empresa estrangeira passa a ser tributada no país da fonte.
- Artigos por tipo de rendimento: imobiliário, lucros empresariais, dividendos, juros, royalties, mais-valias, trabalho dependente e independente, pensões.
- Métodos de eliminação da dupla tributação.
- Não discriminação, procedimento amigável e troca de informações.
Como se resolve a residência dupla
Quando duas legislações internas consideram a mesma pessoa residente, a convenção aplica critérios sucessivos, tipicamente: habitação permanente disponível, centro de interesses vitais (família, bens, vida social e económica), residência habitual e, por fim, nacionalidade; se ainda assim persistir, as autoridades dos dois países resolvem por acordo. Para as sociedades, o critério frequente é o local da direcção efectiva. Estas regras são aplicadas por esta ordem, e só se passa ao critério seguinte se o anterior não resolver.
Estabelecimento estável: o conceito central para empresas
Em regra, os lucros de uma empresa só são tributados no país onde ela reside, salvo se tiver no outro país um estabelecimento estável: uma instalação fixa através da qual exerce a actividade, como escritório, fábrica, sucursal, estaleiro de construção com duração superior a certo prazo, ou um agente dependente que conclui contratos em nome da empresa. Nesse caso, o país da fonte pode tributar os lucros atribuíveis a esse estabelecimento. A definição exacta e os prazos mudam de convenção para convenção.
Os métodos de eliminação
Quando ambos os países podem tributar, o país de residência elimina a dupla tributação por um de dois métodos:
- Método da isenção: o rendimento já tributado na fonte é isento (por vezes com progressividade) no país de residência.
- Método do crédito de imposto: o rendimento é tributado no país de residência, mas deduz-se o imposto pago no estrangeiro, até ao limite do imposto que seria devido sobre esse rendimento.
Exemplo do crédito, valores ilustrativos: um residente recebe 10 000 000 de juros do estrangeiro, onde foi retido 10% (1 000 000). No país de residência, o imposto seria 15% (1 500 000). Crédito: o mínimo entre o imposto estrangeiro (1 000 000) e o imposto interno (1 500 000), logo 1 000 000. Imposto a pagar na residência: 1 500 000 − 1 000 000 = 500 000. Se o imposto estrangeiro fosse 20% (2 000 000), o crédito ficaria limitado a 1 500 000 e o excesso não seria recuperado.
Taxas máximas na fonte: dividendos, juros e royalties
Para rendimentos passivos, as convenções costumam limitar a taxa que o país da fonte pode reter, por exemplo uma taxa máxima para dividendos, outra para juros e outra para royalties, frequentemente mais baixas do que as taxas internas. A convenção prevalece, em regra, sobre a lei interna, mas o beneficiário precisa de provar a residência através de um certificado emitido pela administração fiscal do seu país e, por vezes, de preencher formulários específicos.
Como ler e aplicar uma convenção: método em seis passos
- Verifique se a convenção está em vigor entre os dois países e a partir de que data.
- Determine a residência da pessoa ou empresa.
- Identifique o tipo de rendimento e o artigo aplicável.
- Veja quem tem o direito de tributar, exclusivo ou partilhado, e com que limite.
- Aplique o método de eliminação no país de residência.
- Reúna a prova: certificados de residência, comprovativos de imposto retido, contratos.
Em Angola e em Portugal, existe rede própria de convenções e acordos, com acordos entre vários países, incluindo, tanto quanto é público, entre os dois; a lista e o conteúdo devem ser consultados nas publicações oficiais das administrações fiscais, porque mudam com novas assinaturas e protocolos.
Erros frequentes
- Aplicar a convenção sem verificar se está em vigor ou ratificada.
- Esquecer o certificado de residência e perder o direito à taxa reduzida.
- Confundir isenção com crédito, que produzem resultados diferentes.
- Ignorar o limite do crédito: ele nunca excede o imposto interno sobre o mesmo rendimento.
- Presumir que uma convenção abrange todos os impostos, quando em regra só cobre impostos sobre o rendimento (e, por vezes, o património).
Precisa de apoio de contabilidade para a sua empresa?
Se, além de estudar, tem ou vai abrir um negócio, a Contas Organizadas trata da contabilidade, da fiscalidade e da folha de salários. Fale connosco.
Perguntas frequentes
A convenção substitui a lei interna?
Em regra, aplica-se com prevalência sobre a lei interna no que for mais favorável, mas só dentro do seu âmbito. Não cria obrigações novas de imposto.
Preciso de convenção para evitar dupla tributação?
Sem convenção, alguns países concedem unilateralmente um crédito pelo imposto pago no estrangeiro, mas as condições são mais restritas e variam.
O que é um procedimento amigável?
É o mecanismo pelo qual as administrações fiscais dos dois países negociam um caso em que o contribuinte considera estar a sofrer tributação contrária à convenção.