Caso prático: orçamento de um restaurante
Caso prático de orçamento mensal de um restaurante: refeições servidas, preço médio, custo de comida, gastos fixos, ponto de equilíbrio e cenários.
Num restaurante, a diferença entre lucro e prejuízo costuma estar em poucos pontos percentuais. Por isso, o orçamento mensal é a principal ferramenta de gestão. Este caso constrói passo a passo o orçamento de um restaurante de 40 lugares, calcula o ponto de equilíbrio e testa dois cenários. Valores ilustrativos em Kz.

Pressupostos de partida
- O restaurante abre 26 dias por mês.
- Serve, em média, 80 refeições por dia (clientes). Total mensal: 2 080 refeições.
- Conta média por cliente (comida e bebida): 6 000 Kz.
- Custo de matéria-prima (comida e bebida): 32% das vendas.
- Gastos com pessoal: 4 200 000 Kz por mês.
- Renda: 1 500 000 Kz. Energia, água e gás: 900 000 Kz. Outros (manutenção, limpeza, marketing, comunicações, licenças): 900 000 Kz.
Vendas e custos variáveis
- Vendas: 2 080 × 6 000 = 12 480 000.
- Custo de matéria-prima: 32% × 12 480 000 = 3 993 600.
- Margem bruta: 12 480 000 − 3 993 600 = 8 486 400 (68%).
Por cada refeição, a matéria-prima custa 1 920 Kz (32% de 6 000) e sobram 4 080 Kz para pagar todos os outros gastos e deixar lucro. Este valor chama-se margem de contribuição por cliente e é a base do ponto de equilíbrio.
Gastos fixos e resultado
- Pessoal: 4 200 000
- Renda: 1 500 000
- Energia, água e gás: 900 000
- Outros: 900 000
- Total de gastos fixos: 7 500 000.
Resultado mensal estimado = 8 486 400 − 7 500 000 = 986 400 Kz, ou 7,9% das vendas. Antes de imposto sobre o lucro, de amortizações de equipamento e do reembolso de eventuais empréstimos, que também têm de ser pagos. É uma margem apertada, típica do sector.
Ponto de equilíbrio
É o volume de vendas em que o resultado é zero: gastos fixos ÷ margem de contribuição por cliente.
- 7 500 000 ÷ 4 080 = 1 838,2, ou seja, 1 839 refeições por mês.
- Por dia aberto: 1 839 ÷ 26 ≈ 70,7, ou cerca de 71 refeições.
- Em vendas: 1 839 × 6 000 = 11 034 000 Kz por mês.
O restaurante prevê 80 por dia e precisa de cerca de 71 para não ter prejuízo: a margem de segurança é de 9 refeições por dia, ou cerca de 11%. É curta. Para saber mais, veja o artigo sobre ponto de equilíbrio.
Cenário 1: o movimento cai 10%
- Refeições: 2 080 × 0,9 = 1 872.
- Vendas: 1 872 × 6 000 = 11 232 000.
- Matéria-prima: 32% = 3 594 240.
- Margem bruta: 7 637 760.
- Resultado: 7 637 760 − 7 500 000 = 137 760 Kz.
Uma queda de 10% no movimento reduz o resultado em 86%, de 986 400 para 137 760. É o efeito dos custos fixos elevados: pequenas variações de volume provocam grandes variações de lucro.
Cenário 2: aumento de preços de 5%
Se a conta média subir para 6 300 Kz e o volume se mantiver, o custo de matéria-prima por cliente continua em 1 920 Kz (32% × 6 000), e a margem de contribuição passa a 4 380 Kz. Resultado: 2 080 × 4 380 − 7 500 000 = 9 110 400 − 7 500 000 = 1 610 400 Kz.
Mas este cenário supõe que os clientes não reduzem a procura. Na realidade, um aumento de preço pode afastar clientes. Se o movimento caísse 5% (1 976 refeições), o resultado seria 1 976 × 4 380 − 7 500 000 = 8 654 880 − 7 500 000 = 1 154 880 Kz, ainda melhor do que o original. Teste sempre combinações.
Controlos mensais que protegem o orçamento
- Custo da comida real vs previsto: inventário no início e fim do mês; diferenças indicam desperdício, roubo ou erros de porções.
- Fichas técnicas de pratos, com custo por porção, revistas quando os preços sobem.
- Gastos com pessoal em % das vendas por semana, ajustando escalas ao movimento.
- Vendas por dia e por prato: eliminar pratos que vendem pouco e têm margem baixa.
- Reconciliação de caixa diária.
- Orçamento vs realizado todos os meses, com explicação para desvios.
Há ainda um ponto que o orçamento deve prever: a sazonalidade. Dezembro, feriados e fins-de-semana alargados mudam o movimento e o preço médio, enquanto épocas de chuva ou de menor poder de compra o reduzem. Faça um orçamento por mês, e não apenas um valor médio anual, e guarde reservas nos meses bons para os meses fracos. Reveja as previsões todos os meses com os números reais e ajuste os pressupostos de refeições e conta média, que são os que mais pesam no resultado.
Os valores e percentagens deste caso são ilustrativos. Cada restaurante tem a sua estrutura de custos, e impostos, licenças e taxas variam por país e mudam com o tempo.
Precisa de apoio de contabilidade para a sua empresa?
Se, além de estudar, tem ou vai abrir um negócio, a Contas Organizadas trata da contabilidade, da fiscalidade e da folha de salários. Fale connosco.
Perguntas frequentes
Qual é o custo de matéria-prima normal num restaurante?
Varia muito conforme o tipo de restaurante e a ementa. O 32% usado aqui é ilustrativo; calcule o seu a partir de fichas técnicas e inventários.
Porque o resultado é tão sensível ao movimento?
Porque a maior parte dos gastos, como pessoal e renda, é fixa. Quando as vendas descem, a margem desce, mas os gastos fixos permanecem.
Devo incluir IVA no orçamento?
Normalmente trabalha-se sem imposto sobre o valor acrescentado, que não é rendimento nem gasto do restaurante; mas é preciso acompanhá-lo na tesouraria.