O que é uma bolsa de valores e como funciona
Bolsa de valores explicada: mercado primário e secundário, corretores, ordens, índices, liquidação e a situação em Angola e Portugal.
Uma bolsa de valores é um mercado organizado onde se compram e vendem valores mobiliários, como acções e obrigações, segundo regras públicas e sob supervisão de uma entidade reguladora. Serve dois fins: permitir às empresas e Estados obter financiamento, e dar aos investidores um local para comprar e vender esses títulos com preços transparentes.

Para que serve uma bolsa
Para uma empresa, a bolsa permite captar capital de muitos investidores, sem depender só de bancos ou de poucos sócios. Para o investidor, permite entrar e sair de um investimento com relativa facilidade, ao contrário de uma participação numa empresa privada, difícil de vender. Para a economia, canaliza poupança para investimento produtivo e faz com que os preços reflictam informação disponível.
Convém não confundir bolsa com empresa: a bolsa não emite acções nem garante resultados. É a plataforma onde as emitidas por outros são negociadas.
Mercado primário e mercado secundário
No mercado primário, os títulos são vendidos pela primeira vez pelo emissor, que recebe o dinheiro. O exemplo clássico é a oferta pública inicial (IPO), quando uma empresa se estreia em bolsa, ou a emissão de obrigações do Tesouro por um Estado.
No mercado secundário, os investidores negoceiam entre si títulos já emitidos. O emissor não recebe nada nestas transacções, mas a liquidez do mercado secundário é o que torna os títulos atractivos no primário: sabendo que pode vender depois, o investidor aceita comprar.
Quem participa
- Emissores: empresas e Estados que precisam de financiamento.
- Investidores: particulares, fundos, seguradoras, fundos de pensões, bancos.
- Intermediários financeiros: corretoras e bancos, que recebem e executam as ordens dos clientes. Em regra, o investidor particular não vai directamente à bolsa; passa por um intermediário autorizado.
- Entidade gestora do mercado: organiza a negociação e a divulgação de preços. Exemplos: Euronext Lisboa em Portugal e a BODIVA em Angola.
- Regulador e supervisor: fiscaliza o mercado e os intermediários e protege os investidores. Em Portugal, a CMVM; em Angola, a CMC (Comissão do Mercado de Capitais). Confirme a competência de cada entidade na lei em vigor.
- Câmara de compensação e depositário central: garantem que o dinheiro e os títulos mudam de mãos e ficam registados em nome do comprador.
Como se negoceia: o livro de ordens
A maioria das bolsas funciona por leilão contínuo electrónico. Cada comprador indica o preço máximo que paga e a quantidade (bid); cada vendedor, o preço mínimo e a quantidade (ask). Quando os preços se cruzam, há negócio.
- Ordem de mercado: compra ou vende logo, ao melhor preço disponível. Garante execução, mas não o preço exacto.
- Ordem limitada: só executa ao preço indicado ou melhor. Garante o preço, mas pode não executar.
- Ordem stop: activa-se quando o preço atinge determinado nível, usada para limitar perdas, sem garantia de preço em mercados rápidos.
Exemplo (valores ilustrativos): uma acção tem melhor oferta de compra a 9,98 e melhor oferta de venda a 10,02. Se quiser comprar já, paga 10,02. A diferença entre os dois preços é o spread, aqui 0,04 ou cerca de 0,4%. Em acções pouco negociadas, o spread é maior, e comprar e vender rapidamente custa mais.
Do clique à propriedade: execução e liquidação
Comprar 100 acções a 10 custa 1 000 mais comissões, que variam por intermediário e podem incluir custos de custódia e impostos sobre transacções, conforme o país. Depois da execução, segue-se a liquidação, em que o dinheiro é debitado e os títulos creditados na sua conta de valores, normalmente alguns dias úteis depois. Os prazos dependem do mercado e das regras em vigor.
Os títulos são hoje escriturais, ou seja, registados electronicamente em nome do titular, e não existem em papel. Guarde os extractos: são necessários para a declaração fiscal de mais-valias e dividendos. Em termos de contabilidade pessoal ou empresarial, aplicações financeiras têm de ser registadas e valorizadas segundo as regras aplicáveis; veja o apoio de contabilidade.
Índices: o termómetro do mercado
Um índice bolsista resume o comportamento de um conjunto de acções. O PSI, em Portugal, agrupa empresas cotadas na Euronext Lisboa. Outros índices bem conhecidos incluem o S&P 500 (Estados Unidos) e o Euro Stoxx 50 (zona euro). Quando se diz que a bolsa subiu 1%, refere-se geralmente ao índice principal desse mercado.
Os índices servem de referência de desempenho e, em fundos que os replicam, de base para investir. Veja também o artigo sobre ETFs.
Os mercados lusófonos
Portugal: a Euronext Lisboa faz parte do grupo Euronext, com acesso europeu e liquidez superior à de mercados pequenos. Brasil: a B3 é uma das maiores bolsas do mundo emergente. Angola: a BODIVA negoceia, sobretudo, títulos de dívida pública e um número reduzido de empresas cotadas, num mercado em desenvolvimento. Cabo Verde: existe uma bolsa de valores com dimensão pequena. Mercados mais pequenos têm menos liquidez, menos opções e spreads maiores, o que aumenta o risco para o investidor.
Riscos e cuidados
Investir em bolsa envolve o risco de perda de parte ou da totalidade do capital. Antes de investir:
- Estude o produto e leia o prospecto ou o documento de informação fundamental.
- Verifique que o intermediário está autorizado pelo regulador do seu país; as autoridades publicam listas de entidades autorizadas e de alertas.
- Invista apenas dinheiro de que não precisa no curto prazo e depois de constituir uma reserva de emergência (orçamento pessoal).
- Desconfie de promessas de retorno garantido e de quem pede dinheiro fora dos canais regulados.
- Compare comissões: custos pequenos acumulam-se ao longo dos anos.
- Diversifique, em vez de concentrar tudo num título.
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Perguntas frequentes
Preciso de muito dinheiro para investir em bolsa?
Não existe um mínimo universal; depende do intermediário e do produto. O que importa é que as comissões não consumam uma parte relevante de montantes pequenos.
Quem fixa o preço de uma acção?
O preço resulta do encontro entre compradores e vendedores na bolsa. Muda a cada negócio, em função da informação e das expectativas dos participantes.
Se a empresa falir, perco tudo?
O accionista é o último a receber na ordem de pagamento em caso de falência, e a perda máxima é o valor investido, mas pode ser total. Credores, trabalhadores e Estado têm prioridade.
Bolsa é o mesmo que jogo de azar?
Não: investir em activos com base em análise e diversificação é diferente de apostar. Mas negociar a curto prazo, com alavancagem e sem método, aproxima-se de especulação com elevado risco de perda.